A fidelidade de Zeca Pagodinho ao samba — e a si mesmo — brilha com força na edição em vinil do álbum comemorativo de seus 40 anos de carreira. Lançado originalmente em 2024 no formato digital, o disco agora ganha vida em um caprichado LP duplo de 180 gramas, cuja arte gráfica traduz com beleza a coerência artística de um dos nomes mais autênticos do samba carioca.
Sempre espontâneo e avesso a modismos, Zeca construiu uma trajetória sólida desde que foi revelado por Beth Carvalho, em 1983. Beth, ícone do samba, gravou Camarão que dorme a onda leva — parceria de Zeca com Arlindo Cruz e Beto Sem Braço — incluindo o próprio Zeca na faixa, então um partideiro tímido que encantava sob as tamarineiras do Cacique de Ramos, berço do pagode que revolucionou o Rio de Janeiro nos anos 1980.
Foi em 1985, porém, que Zeca deu início formal à carreira de cantor ao participar do álbum coletivo Raça Brasileira. Mesmo ofuscado inicialmente por vozes como as de Elaine Machado e Jovelina Pérola Negra, o artista virou o jogo no ano seguinte com o sucesso de seu primeiro disco solo, Zeca Pagodinho (1986), lançado em LP — mesmo formato da atual edição especial de aniversário.
O projeto gráfico deste novo LP é inspirado nas imagens criadas por Batman Zavareze para a cenografia do show gravado em 4 de fevereiro de 2024, no Estádio Nilton Santos (Engenhão). A edição cumpre bem seu papel de homenagear os 40 anos de carreira de Zeca, reunindo sucessos da fase inicial na RGE (1985–1987) e os hits da retomada na PolyGram/Universal Music, a partir de 1995, com a produção refinada de Rildo Hora — também presente no show com sua gaita em Lama nas ruas.
A produção musical do álbum Zeca Pagodinho – 40 anos ao vivo fica por conta de Paulão 7 Cordas e Pretinho da Serrinha, e traz participações que vão de parceiros históricos a nomes contemporâneos: Alcione, Jorge Aragão, Xande de Pilares, Marcelo D2, Iza, Djonga, Seu Jorge e Diogo Nogueira. As colaborações fluem naturalmente e ajudam a pintar um retrato completo da relevância e do alcance do sambista.
Mesmo nos períodos de menor exposição midiática, como entre 1989 e 1993 na BMG-Ariola — quando seus álbuns não receberam o tratamento ideal — Zeca manteve sua essência. Continuou fiel ao samba de raiz e às rodas dos quintais cariocas onde tudo começou.
Essa lealdade está estampada na capa do LP: uma composição que sobrepõe cinco vezes a imagem de Zeca nos anos 1980, reforçando o elo entre o passado e o presente. Quarenta anos depois, o sambista ainda carrega o mesmo espírito que encantou Beth Carvalho e que conquistou o país inteiro — um mestre que nunca abandonou suas origens.














