Com mais de cinco décadas de carreira e inúmeros clássicos no repertório da música brasileira, Alceu Valença admite que nunca se preocupou em identificar o momento exato em que se tornou um ícone da MPB. “Nunca pensei nisso, não. Eu sigo minha carreira. Claro que é bom ser reconhecido, mas, quando entro no palco, estou no palco”, afirmou.
Em 2026, o pernambucano comemora 80 anos com a turnê “80 Girassóis”, que passará por dez capitais brasileiras e reunirá sucessos de todas as fases de sua trajetória — de “Pelas Ruas que Andei” e “Belle de Jour” a “Anunciação”, “Tropicana”, “Como Dois Animais” e “Coração Bobo”. Segundo ele, o espetáculo terá uma narrativa de inspiração cinematográfica.
Músicas que passaram “de pai para filho”
Alceu comentou o fenômeno de suas canções, que seguem vivas entre diferentes gerações. Para ele, o streaming desempenhou papel fundamental nesse processo.
“As gravadoras perderam um pouco do poder com o tempo. Quando chegam as plataformas, algumas músicas que estavam no inconsciente do pai, da mãe… começam a chegar ao filho. E novas gerações passam a cantar”, explica.
Sobre a criação de “Anunciação”, ele relembra o momento quase improvisado em que a música nasceu: “Eu saí tocando flauta pelas ruas de Olinda. Não pensava que estava compondo nada. Peguei um papel de pão, fui pra sala e escrevi na hora. Eu não faço nada pensando no que vai acontecer”.
Embora muitos de seus clássicos tenham ganhado remixes e versões em outros ritmos, Alceu admite que raramente ouve essas releituras.
Influências e identidade musical
O artista também falou sobre suas raízes, profundamente ligadas à infância no Recife. “Toda essa cultura do carnaval entrou na minha cabeça de maneira natural, por causa da rua onde eu morava, por onde passavam vários blocos carnavalescos.”
Ele relembra ainda quando foi comparado a Bob Dylan — influência que ele próprio desconhecia na época. “Querem botar tudo numa caixinha”, comenta.
Segundo ele, sua música é fruto de uma mistura essencialmente brasileira: “Eu faço o Brasil. E faço com coisas muito antigas, que estão no HD da minha memória: minha cultura africana, ameríndia e ibérica”.
Alceu avalia que o cenário musical nordestino se transformou — hoje é possível alcançar o país inteiro sem precisar migrar para o Sudeste. “Antes, os artistas tinham que ir para o Rio de Janeiro. Hoje existem estúdios e plataformas em tudo que é canto.”
Parcerias, novos sons e opiniões sinceras
Sobre O Grande Encontro, parceria histórica com Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, o cantor afirma que não houve conflitos na saída de Zé. “Foi sem brigas”, garante, embora não se comprometa com um novo reencontro: “Não sou produtor”, brinca.
Ele reconhece que há muitos artistas promissores na nova geração do forró, mas admite não se identificar com todos. “Tem coisa que parece que você está no meio da boate. Eu não gosto muito, não.”














