Com dois álbuns, show comemorativo, biografia, documentário e a inédita “Menino de Gaza”, artista reafirma sua relevância na música brasileira e internacional.
Um dos grandes nomes da música popular brasileira, Ivan Lins completa 80 anos neste domingo (16), com a energia de quem ainda tem muito a dizer. Parte da geração dourada da MPB surgida nos anos 1960, o carioca se junta agora ao seleto grupo de octogenários ilustres que inclui Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, Paulinho da Viola e Marcos Valle.
Nascido em 1945, Ivan Guimarães Lins segue em plena atividade criativa. Desde 2024, prepara um novo álbum com composições inéditas — o primeiro nesse formato desde Amorágio (2012) — e lança em julho, no Rio de Janeiro, a turnê Ivan Lins 80. O show inclui “Menino de Gaza”, parceria com Simone Guimarães, que reafirma o lado politizado do compositor. Outro projeto em andamento revisita seus sambas, com arranjos de mestres como Carlinhos e Paulão Sete Cordas e Rafael dos Anjos, além de participações especiais de Diogo Nogueira, Mart’nália e Zeca Pagodinho. Um documentário e uma biografia inéditos também estão a caminho.
São mais de seis décadas de carreira iniciada em 1965, nos bares da Tijuca com o Alfa Trio. Desde então, Ivan se destacou por fundir influências da bossa nova, jazz e da canção americana, com sofisticação melódica e harmônica que o tornou referência dentro e fora do Brasil — especialmente nos Estados Unidos, onde é reverenciado no universo do jazz.
Apesar de ter iniciado a carreira nos anos 1960, foi só na década seguinte que Ivan Lins alcançou o sucesso nacional. Em 1970, Elis Regina gravou Madalena, e ajudou a consolidar o nome do compositor, que sofria à época com leituras equivocadas de seu trabalho inicial. A virada definitiva veio em 1974, com a parceria com o letrista Vitor Martins, que intensificou o tom político e reflexivo de seu repertório, dando voz à resistência cultural contra a ditadura.
A partir daí, Ivan firmou-se com clássicos como Aos nossos filhos, Cartomante e Começar de novo — essa última eternizada na voz de Simone, após recusa de Maria Bethânia. Seu trabalho passou a ser interpretado por grandes vozes como Fafá de Belém, Nana Caymmi e Elis Regina.
Nos anos 1980, reduziu o ritmo de lançamentos, mas viu sua música ultrapassar fronteiras e ganhar novas versões nas vozes de ícones do jazz internacional. Nos anos 1990, fundou a gravadora independente Velas, ao lado de Vitor Martins e do produtor Paulo Albuquerque, enfrentando o mercado com ousadia e pioneirismo.
A fase de maior coesão artística veio com os discos lançados entre 1977 e 1980 pela EMI-Odeon, como Somos todos iguais nessa noite e Novo tempo. A partir dos anos 2000, Ivan revisitou sua própria obra com orquestras e big bands internacionais, como no álbum My Heart Speaks (2023), gravado com orquestra da Geórgia, nos EUA.
Mesmo com o distanciamento progressivo entre a MPB e o grande público nos últimos anos, Ivan Lins segue fiel à qualidade e à profundidade musical que sempre marcaram sua trajetória. Entre o romantismo de Lembra de mim e o engajamento de Menino de Gaza, o artista prova que envelhecer também pode ser continuar em movimento.
Aos 80 anos, Ivan Lins permanece como um dos maiores compositores brasileiros, dono de uma obra que transcende estilos, gerações e fronteiras.














